A luta de Mendonça

poradmin

A luta de Mendonça

A história dessa reportagem começou ainda no primeiro semestre, quando a entrevista com Mendonça, ídolo do Botafogo nos anos 70 e 80, foi marcada. Com passagens importantes também por Palmeiras, Santos e Grêmio, por exemplo, ele acabara de completar um ano de um dos episódios mais graves que já enfrentou.

Em maio de 2017, ele foi internado em um pronto-socorro com problemas no fígado, no baço e no pâncreas. Sinais do abuso do álcool. Mendonça foi tratado e, depois de 20 dias no hospital, rumou para uma clínica de reabilitação. Ficou 40 dias internado.

A ideia era falar com Mendonça sobre a superação do vício, conversar como ele encarava os dias sóbrio, rever a sua carreira de uma nova perspectiva e descobrir que ensinamentos o ex-jogador poderia dar para quem enfrenta a mesma doença. Mas a vida não é tão fácil assim.


O Zico do Botafogo

Para quem não conheceu Mendonça, vamos começar pelas lembranças. Quem o viu jogar fala de um meio-campista talentoso, daqueles que organizavam o meio-campo de um time. Chutava bem, driblava muito, fazia gols de cabeça. Passou por Portuguesa, Palmeiras, Santos, Grêmio. Rodou o interior paulista.

Mas era ídolo, mesmo, do Botafogo. Chegou ao clube com 15 anos. Em sete temporadas defendendo o clube, marcou mais de 100 gols. O porém? Nunca foi campeão por lá. Os anos 70 e 80, justamente aqueles em que Mendonça brilhou, são de fila.

“Se eu tivesse sido campeão, seria diferente. Para falar a verdade, não queria nem faixa, entendeu? Queria aquele rótulo de campeão no Botafogo. Poderia ser em qualquer um dos oito anos em que joguei lá. Isso ia ficar na cabeça do torcedor pelo resto da vida. Seria um presente. Saber que o torcedor pensa `Mendonça fez parte daquele campeonato´, para mim, já seria suficiente“.

E é aí que você pode começar a entender um pouco a personalidade do nosso personagem. O mesmo jogador que, no início dos anos 80, falou “não sou um jogador do Botafogo, sou um torcedor do Botafogo acima de tudo” é o mesmo que se lembra com mágoa do período em que passou por lá.

“Naquela época, havia clubes interessados em mim. Mas eu não queria sair do Botafogo. E perdi grandes chances. Eu perdi Corinthians, São Paulo, Cruzeiro, Grêmio”.

“Eu acho que, dentro de mim, nesse lance de querer ficar e ser campeão, eu me prejudiquei. Esses clubes que falei que mostraram interesse. Se eu tivesse saído, estaria em condição melhor. Porque eram clubes que sempre estavam em finais, eu podia sempre estar fazendo mais gols, sempre lembrado pela seleção. Seria diferente. Então, quer dizer, perdi um tempo lá. Perdi um tempo no Botafogo. É aquele lance de um erro que não tem como consertar. Não tem como”.

O título perdido

O momento em que Mendonça chegou mais perto desse título que nunca veio foi em 1981. Eram quartas de final do Campeonato Brasileiro e o Botafogo encarava o Esquadrão Imortal do Flamengo, o mesmo time campeão nacional em 1980, da Libertadores e do Mundial em 1981.

O Maracanã estava lotado e o Botafogo venceu por 3 a 1. O lance mais marcante daquele jogo foi justamente de Mendonça, que recebeu um lançamento de Mirandinha e, marcado por Júnior, driblou o lateral e chutou na saída do goleiro.

“Esse gol tinha que sair, ainda mais vindo do Mirandinha. Quando a bola viajou, o Júnior veio da esquerda cobrindo os outros zagueiros. Veio cansado. Eu pensei: ele vai imaginar que vou partir pra dentro, mas eu não vou. Vou trazer pra fora. Sabia que ia ficar com menos ângulo, mas deu tudo certo. O Raul ainda caiu pra trás. Eu tinha que finalizar”.

Foi tão bonito que o gol ganhou um nome: Baila Comigo.

Na semifinal, o adversário era o São Paulo, de Serginho Chulapa & Cia. O Botafogo venceu por 1 a 0 no Rio de Janeiro e, no jogo no Morumbi, abriu 2 a 0. Mas os paulistas viraram o jogo, venceram por 3 a 2 e foram para decisão – perdida para o Grêmio (na foto acima, Serginho e o goleiro do Grêmio, Leão).

Mendonça até hoje não aceita essa derrota. Durante a entrevista, lembrou da intimidação no vestiário, disse que o árbitro da partida trabalhou para o time da casa e reclamou de sair de campo no segundo tempo.

“A coisa partiu para um lado que foi absurdo. A Serginho chutou a cabeça do Paulo Sérgio [goleiro do Botafogo]. O cara estava completamente pressionado. Pressionado, não. Com medo. Medo de não sair do Morumbi. E você fica sem noção nenhuma do que se pode fazer, entendeu? É, tipo assim, se entregar. Tipo um assalto. O cara está armado e você entrega tudo. Não tem como recorrer a algum lugar”.

Aquele jogo marcou o fim da linha de Mendonça no Botafogo. Ele ainda brilhou com outras camisas. Fez golaços pela Portuguesa, encantou com as cores de Palmeiras, Santos e Grêmio. Rodou pelo interior do estado de São Paulo. Mas nunca reencontrou a alegria que tinha no Botafogo. Mesmo que ter ficado oito anos por lá tenha sido, como ele mesmo diz, o motivo para não ter brilhado na seleção.

“Para chegar à seleção, tinha pelo menos que disputar final do Carioca, do Brasileiro. Para estar em evidência. Se você não está em evidência, praticamente é esquecido. Isso é normal. Quem disputa a final está em evidência, com moral. O que me prejudicava porque o Botafogo não chegava. Então…”

Mendonça

O início da doença

Você sentiu, nas declarações de Mendonça, uma ponta de amargura? Aquele sentimento de que ele pensa que, por algum detalhe, sempre perdeu o trem por alguns segundos? Foi isso que levou o ex-jogador ao álcool. Quando se aposentou, passou a incluir cada vez mais o álcool em sua rotina. Trocava refeições por goles.

“Ele se entregou à bebida. Ele estava bebendo muito, passou a ser até no café-da-manhã, infelizmente. Isso, de uns dois anos para cá, foi constante”, disse Pedro, um dos seis irmãos de Mendonça, no ano passado, antes da reabilitação e tratamento do alcoolismo.

A internação em maio do ano passado foi grave. Ele ficou dias na UTI. Existia risco de morte. Mas, durante a entrevista, você não entenderia assim. Mendonça descreve o período mais como susto do que como risco. “O lance foi o seguinte: a plaqueta que caiu, entendeu? Se você bobear, ela atinge fígado, pâncreas. O médico falou que dei sorte porque fui atleta e tive resistência pra absorver isso aí. Me deu assistência até onde pôde, me alimentando, aquele negócio todo”.

Já em tratamento, ele foi para uma clínica em Vargem Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. Chegou até lá graças a Adílio, ex-Flamengo, seu amigo. Outros jogadores e dirigentes também ajudaram. Mendonça cita Gottardo e Fred, irmão de Paulo César Caju, Carlos Montenegro, ex-presidente do Botafogo, até Marcelo Crivella, prefeito do Rio. Fala em gratidão a todos. Mas, sobre o tratamento, não cita lição nenhuma sobre a internação.

“A clínica te acolhe na recuperação. Só que meu caso é diferente. Se bem que cigarro é uma droga. Cerveja também. Mas ali as pessoas são diferentes de mim porque são muitos drogados. Meu caso foi o álcool. Minha situação era mais fácil de recuperar. O médico falou que eu tinha que comer, que eu estava fraco”.

A reabilitação

Mendonça ficou 40 dias internado na clínica de recuperação. Enquanto ele falava do período, do outro lado da câmera aparecia um incômodo. Como assim “são diferentes de mim”? Ou “ele me deu assistência até onde pôde, me alimentando”? O maior sinal de alerta que percebemos veio em outra resposta, após ser questionado se teve vontade de beber após sair da reabilitação.

“Como num tempo atrás, que me deu vontade de beber e aconteceu. Você sente aquela coisa amarga, vai empurrando, vai empurrando. Aí chega dia em que você se adapta”. Mendonça completou dizendo que hoje pensa que “cerveja tem um gosto amargo”, que nunca mais teve vontade, que “vê gente bebendo ao seu lado e não está nem aí”.

Mas todos ouvimos: “deu vontade de beber e aconteceu”.

A visão de uma especialista

Falamos, então, com Flávia Serebrenic. Ela é psicóloga, pesquisadora no Grea (Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, especialista em dependência química com mestrado e doutorado na área. Ao ouvir a história de Mendonça, explicou que o tratamento é mais complexo do que todos pensam.

“É uma coisa extremamente ampla. Não dá para atacar uma frente só porque é muito difícil que a pessoa mude. Suponha que você ame o chocolate: para mudar o hábito de comer chocolate, é preciso mudar uma série de coisas na vida. Hábitos alimentares, de saúde. No caso do álcool, é preciso mudar como você sai de casa, com quem você sai”.

Como ponderou a psicóloga, 40 dias em uma clínica de reabilitação não mudam alguém. “Internação é uma medida radical, quando todos os outros meios são esgotados. Quando a pessoa está causando violência para ela e para outros”, analisa. “Tirar a pessoa do mundo dela e levar para um lugar em que estará isolada é colocá-la em uma vida de mentira. Não é a vida real, com os riscos e estímulos que estão no mundo real”.

Foi o que aconteceu com Mendonça.

Durante a entrevista, ele lembrou que “falaram várias vezes na clínica: `abstinência é difícil´”. E citou exemplos: “Já fui em várias festas e, porra, nego tomando cerveja à vontade. E eu só na água. Fui para Madalena, no Carnaval, nego enchendo a cara de cerveja e eu no suco de manga”.

A preocupação da família

Como você já deve imaginar ao chegar até aqui, Mendonça teve uma recaída. Voltamos a procurar a família e foi o irmão, Pedro Luiz, quem explicou a situação: “Olha, é o seguinte: infelizmente, ele não parou de beber. Quando vocês estiveram aqui, ele estava até escondendo que bebia. Ia lá pro fundo dos bares e bebia. Agora, nem isso mais ele faz. Pode não ser como antes, mas, sim, está bebendo”.

“Eu gostei até da sua sinceridade de achar que ele não parou de beber. Porque tem gente que vê e não fala nada. Ele não está ainda como antigamente, mas voltou. E o médico frisou muito: `Não é pra você voltar a beber um pouquinho. Você não pode de jeito nenhum. Nenhum gole´. Eu sou o irmão dele e falo isso com muita dor”, completa Pedro.

Reabilitação é feita de cair e levantar

Essa decepção do irmão de Mendonça não é incomum. Ver um irmão nessa situação é doloroso. Olhar para um amigo nessa batalha é triste. Ouvimos, durante a apuração, relatos de amigos que, após ajudar Mendonça em um primeiro momento, hoje têm ressalvas para falar sobre o caso.

Mas é preciso lembrar que alcóolatras não voltam a beber por que querem: “O alcoolismo é uma doença crônica. Quem tem problema com álcool, usando a linguagem do AA [Alcóolicos Anônimos] e dos 12 Passos [o programa de recuperação do AA], vai ser sempre um alcoolista em recuperação. Uma vez que pessoa teve um problema, abusou e ficou dependente, para sempre vai ter de tomar cuidado com isso”, ensina a psicóloga Flávia.

“Recaída é algo comum na trajetória de tratamento do usuário de droga. É muito normal tentar ficar abstinente e ter várias recaídas. E para o paciente que está tentando se recuperar, sentir que a família e os amigos o consideram um fracasso é muito difícil. Nós, profissionais, achamos que faz parte do tratamento a recaída. E o que é preciso fazer? Não é negar a recaída. É entender o que aconteceu para aquela pessoa voltar a beber. Isso é importante para que não aconteça de novo”.

“Quando eu sonhava em ser campeão, não era para dar volta olímpica, comemorar. Eu iria sair de fininho, descer para o o vestiário e vibrar comigo, sozinho. Sempre pensei nisso, acredita? ”

Mendonça

Sobre o Autor

admin administrator

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.